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Quem Vê Cavalinho Não Vê Coração


Quando o Liam tinha por volta de 4 meses de idade, eu escrevi que o aspecto mais difícil de criar um filho para mim era o fato de estarmos distante da minha família. Na época uma amiga de infância que já tinha um filho mais velho me disse o seguinte: “espera só o Liam crescer mais um pouco e você vai ver que o aspecto mais difícil da criação de um filho é a educação. Na época, no maior estilo juntando uma poça de cuspe metafórico em suspensão que depois cairia na minha testa, eu pensei que ela falava isso por não conhecer os desafios de se criar um filho como expatriada. Agora que Liam fez dois anos, eu tento limpar o cuspe caído enquanto digo: “amiga, você estava certa!”

Ontem quem viu Liam caminhando para o parque, feliz e risonho, fofo que só ele puxando seu cavalinho de madeira, não poderia imaginar vocês não e eu quisesse eu teria conseguido filmar (me faltavam braços!), foi a forma como voltamos do parque. Eu carregando ele e o cavalo no colo, enquanto ele gritava e apontava em direção ao parque desesperadamente.


Tempos atrás eu teria olhado ao meu redor, buscando os olhos que me julgavam. Eu teria reagido à situação, em vez de respondido às necessidades do meu filho. Eu teria rangido os dentes em frustração e vergonha por achar que meu filho, do auge dos seus 2 anos e 3 meses precisa entender e respeitar que ninguém além de mim e do pai é obrigado a ouvir o choro dele.


De uns tempos para cá tenho percebido a ironia que é me sentir frustrada (em público!) quando meu filho fica frustrado e demonstra isso publicamente da única maneira que consegue, do único modo que sua pouca idade lhe permite. Não existe "não sentir" em público, o que existe é uma forma apropriada de lidar com sentimentos e isso vem com a idade. Percebi também a ironia que é exigir do meu filho respeito para com o outro, para com o espaço do outro, quando eu, sua mãe, não demonstro respeito para com ele, para com os sentimentos dele.


Noto que como sociedade temos muito mais tolerância para adultos que incomodam do que para crianças. Quantas vezes no decorrer da vida lidamos com a falta de bom senso de gente crescida que insiste em falar alto no celular dentro do ônibus ou escutar música alta sem se importar com os vizinhos? Mas quando a "poluição sonora" vem do choro de uma criança escolhemos julgar, não entender, culpar a mãe. Exigimos das nossas crianças o que muitos adultos não conseguem entender.


Como é árdua essa tarefa de educar outro ser humano, gente! A parte mais difícil é que não saberemos ao certo se as nossas escolhas foram as melhores até que nossos filhos estejam criados. E aí já é tarde demais para mudar de método, para encontrar mais paciência, para entender a diferença entre impor limites e acorrentar uma alma. Como criar um ser humano que o resto do mundo consiga aturar respeitando sua individualidade e espírito? Como corrigir e ainda assim alimentar sua autoestima? Ás vezes tenho a sensação de estar a apenas mais um “não” dado de ser uma mãe rígida demais. E outras parece que estou a uma birra de ser muito permissiva. Que linha mais tênue!

Se você diz não à uma criança dez vezes e a criança persiste naquele comportamento, a teimosia não está na criança e sim em você. Por isso vou tentando entre erros e acertos caminhar nessa corda bamba. Vou buscando soluções para problemas que quase nunca consigo prever ou evitar. Às vezes com muita calma e paciência, às vezes puxando os próprios cabelos e rangendo os dentes. Mas sempre tentando lembrar que preciso ensinar meu filho a resolver seus conflitos e não puni-lo por tê-los. E a melhor maneira de ele aprender a como resolver seu conflitos é assistindo como eu resolvo os meus, como eu lido com minhas frustrações, como eu me comporto sob stress. Focar na solução e não em retribuição, acredito que seja esse o caminho. Por aqui tenho aprendido que para educar com consistência preciso antes de tudo ter empatia. Preciso ter flexibilidade para entender que a idade e as circunstâncias podem e devem influenciar no que eu considero comportamento aceitável por parte do meu filho. Preciso responder e não reagir, tendo em mente que "aceitar" as limitações que a idade dele impõe não faz de mim uma mãe permissiva e sim uma mãe amorosa. Mas oh, como é difícil, viu?


Por Fernanda Marques (@eagoracinderela)

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