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Portal Mágico


“Sua barriga é grande e gorda.” Essa foi a frase que escutei do meu filho mais velho dois dias atrás enquanto tomávamos banho. Ele ria e apertava minha barriga como se brincasse com um slime, desses que faz a gente passar raiva quando gruda no sofá. . Isso me deu pausa. Criança falando a verdade de modo escancarado geralmente dá. Adulto não tá acostumado. Parte de mim achou a cena engraçada de tão clichê e a outra parte ficou incomodada. Mas por quê? E como responder? Não direi aos meus filhos que gorda é uma palavra ofensiva. Não em nossa casa. Não perpetuarei o estigma de que isso é um insulto porque não é e porque eu sei que meu filho não me insultava. . “Sabe o que mais minha barriga é, filho? Um portal mágico. Foi através dela que você e sua irmã chegaram aqui. Sabe super poderes? Minha barriga tem o super poder de fabricar seres humanos. Cada pedacinho teu já morou aqui.” . Verdades. Vez por outra precisamos da coragem de uma criança para escancara-las. Exatamente dois meses atrás essa barriga me trouxe minha filha. Parida do corpo de uma fêmea, sem dormência e sem pudor. De um corpo que colecionou vestígios do muito que já comportou e, por conta disso, nunca se portará envergonhado e nem será diminuído. 33 anos e 2 vidas, numa jornada de quem se recusa a ser invisível. Eu e meu corpo gordo estamos aqui.


Por Fernanda Marques (@eagoracinderela)

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