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Os filhos e o mundo

Atualizado: Jan 23


Hoje tomei meu café com lágrimas, e na minha boca amargava a saudade que sinto da minha mãe. Fiquei pensando em quantas vezes, desde que me tornei mãe, já escutei a frase “não pause sua vida pelos filhos, pois eles um dia crescem” ou alguma variação dela, repetida, ainda que não intencional- mente, como uma forma disfarçada de escrutinar e menos- prezar a dedicação de uma mãe. Cria-se filho para o mundo, todos dizem. As asas, as benditas asas. Eu sei, você sabe.


Não pausar a vida. Ideia curiosa esta, já que ser mãe é viver eternamente de pausas. Por nove meses (ou mais) pausamos o vinho. Por aproximadamente 40 dias (provavelmente bem mais) pausamos a vida sexual. Por muitas e muitas noites pausamos o sono. Pausamos a reunião de trabalho, a ligação importante, a promoção. Pausamos a poupança, porque juntar dinheiro fica difícil. Pausamos refeições e banhos. Pausamos a privacidade. Pausamos os planos de viagens, as saídas com as amigas, as idas ao cabeleireiro. Pausamos o coração na preocupação e a nossa própria vida para respirar a deles.


Criar para o mundo. O que seria? Suponho que minha mãe tenha me criado “para o mundo”. As asas sobre as quais todo mundo fala? Tenho um belo par. E as coloquei em uso bem cedo, quando saí de casa aos 14 anos e quando saí do país aos 18. Fui conquistar esse mundão para o qual minha mãe


me criou com sucesso. Mas a verdade é que, mesmo estando no mundo, eu nunca deixei de ser dela. Um pedaço dela. Um produto dela. Tão dela que, mesmo com mais de 30 anos, eu ainda preciso que ela pause a vida dela por mim. E ela faz isso. Passa dois, três meses aqui, respirando minha vida por mim. Ela pausa com a generosidade de quem está habituada a pausar, doar, amar e amar e amar.


Então eu penso, enquanto tomo meu café com lágrimas e amargo a saudade que sinto da minha mãe, que filhos não são do mundo. Nossos filhos são nossos! Eles vieram de nós e voltam para nós diversas vezes. Mesmo estando longe, mesmo sendo do mundo, eles ainda são nossos. Nossos pedaços. Nossos produtos. Os produtos de todas as nossas pausas. Porque é na pausa que fortalecemos o vínculo, é na pausa que construímos as memórias. É no pausar da vida, nesse incessante viver pelo outro, em meio a dores e sacrifícios que, como mulheres, muitas vezes nos vemos plenas. E mais do que isso, nos vemos mães.


Por Fernanda Marques (@eagoracinderela)

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