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Mentirinhas


Do topo da escada, com as mãos nos quadris e cara de brava, eu indago: “Liam, você jogou algo no vaso sanitário?!” Ray estava ajoelhado no chão do banheiro, mão enluvada, tentando recuperar o telefone de brinquedo que estava empacado lá dentro. “Não” respondeu a voz miúda acompanhada de olhar cabisbaixo. E algo clicou em mim: eu tinha, com sucesso, acabado de convidar meu filho de três anos a mentir.

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Quando eu tinha 13 anos, eu estava de namorico com um carinha. Namorico bobinho e inocente de adolescente. Quando ele me apareceu com um buquê de flores no Dia dos Namorados, eu quis contar para minha mãe. Quando toquei no assunto “namoro,” minha mãe foi categórica: “se eu descobrir que você tá com negócio de namorado, te mando para um colégio interno.” Ela me considerava muito nova, e hoje, como mãe, eu não só entendo que ela falou aquilo da boca para fora, como também entendo as razões dela. Mas depois dessa declaração, ficou difícil me abrir com ela. E aí, dos meus 13 aos meus 18 anos, eu e ela fomos separadas por um abismo gigantesco enquanto eu tecia uma teia tão complexa de tramas, segredos e mentiras que deixaria qualquer chefe da máfia impressionado.

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Salvas as devidas proporções, foi disso que eu lembrei quando ouvi aquela “mentirinha”. Eu, com meu tom acusatório e postura ameaçadora, passei a mensagem de que o “não” seria a resposta mais segura para ele. O “não” evitaria a bronca, a vergonha, a humilhação. Eu encurralei meu filho com seu próprio erro.

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Não faz muito sentido preparar emboscadas para nossos filhos com perguntas para as quais já temos as repostas. Claro que eu já sabia que Liam havia jogado o brinquedo no vaso. Não existia qualquer outra possibilidade. O “não” que eu recebi foi o mecanismo de defesa de uma criança de 3 anos me mostrando que sua consciência está se desenvolvendo, pois ele sabia que o que tinha feito era errado. Tentei de novo: “Filho, eu tô vendo que você jogou o telefone lá. Vem cá, deixa eu te mostrar o que acontece.”

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Nossa necessidade de atribuir culpa e fazer com que nossos filhos paguem por seus erros é tão aguda que esquecemos de ensinar-lhes o valor e a paz interior que sentimos ao fazermos a coisa a certa.


Por Fernanda Marques (@eagoracinderela)

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