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Desculpas e Furadas


Lembro o quanto fiquei orgulhosa a primeira vez que Liam disse “sorry.” Meu coração provavelmente cresceu duas vezes em tamanho. Que lindeza! Que menininho mais amoroso! Aí o tempo foi passando. De “sorry” ele aprendeu a falar “desculpa” e essas duas palavras somadas a olhinhos suplicantes derretiam meu coração gigante.


Até que comecei a perceber que “desculpa” pro Liam funcionava como um passe livre. Ele podia agir da forma que quisesse e com tanto que pedisse desculpas depois, estava tudo bem. A última gota que fez transbordar o balde veio umas semanas atrás quando ele se desculpou ANTES de fazer o que eu tinha acabado de pedir que ele não fizesse. Sim, ele olhou na minha cara, se desculpou e prosseguiu a agir de maneira que ele sabia ser errada. Acho que na cabecinha dele, se ele se desculpasse antes, eu nem chegaria a ficar brava. Sei lá. Mas sei que depois disso entendi claramente que meu filho de 3 anos não tinha ideia do que significa a palavra “desculpa” e fazê-lo repetí-la era uma ação vazia apenas para apaziguar meu ego com a certeza de que meu filho tem “boas maneiras.”


Dois dias atrás, numa brincadeira mais pesada, Liam acabou machucando a avó. O pedido de desculpas veio de forma mecânica mas dessa vez não foi suficiente. Virei pra ele e disse: “Você machucou sua avó. Ela está sentindo dor. Você precisa fazer algo pra ajudá-la.” Liam largou os brinquedos. Foi pegar Neosporin e um band-aid. Passou o creme no braço da minha mãe, beijou, alisou. Sentou com ela até que ela (que dramatizou pro meu benefício) mostrou sinais de estar melhor.


Agora a regra aqui em casa é essa: fez bobeira, conserte. Machucou alguém? Não é suficiente pedir desculpa. Tem que perguntar o que você pode fazer pra ajudar.


Empatia não é algo que a criança desenvolve automaticamente, precisa ser praticada. Liam é uma criança bastante empática. Essa semana uma amiguinha da rua caiu, e ele foi lá dar um beijo nela e dizer “it’s okay” (e dai as crianças mais velhas ficaram dizendo que os dois eram namorados, mas essa é uma história pra outro post). Acho que parte disso é graças aos livros pois nada estimula tanto empatia quanto leitura. Mas mesmo tendo testemunhado Liam sendo empático inúmeras vezes, entendo que é um trabalho em progresso ainda. Só por volta das 5 anos a criança desenvolve bem a parte do cérebro responsável por empatia. Então, até que ele entenda o que um pedido de desculpas realmente significa, é meu trabalho enquanto mãe explicar de outras maneiras, ajudá-la a melhorar, a consertar, a ajudar, a se colocar no lugar de alguém, a sentir o que o outro sente e enxergar o mundo sob uma perspectiva que vá além da sua limitada experiência. Às vezes “desculpa” simplesmente não é suficiente.


Por Fernanda Marques (@eagoracinderela)

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