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Amanhã é um novo dia


Quando eu estava na sexta série, eu bati forte com a testa numa cadeira. Minha testa abriu, fui levada pra enfermaria e constataram que eu precisaria levar pontos. Ligaram para os meus pais e minha mãe foi me pegar pra me levar ao hospital. Chegando na escola, ao me avistar, o primeiro comentário que minha mãe fez não foi sobre meu corte ou sobre estar preocupada comigo. Foi sobre minha roupa: “isso é jeito de se vestir para vir para escola, menina?” Eu fiquei tão magoada com aquilo que nunca esqueci.

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Hoje, como mãe, eu entendo bem o quanto é difícil deixar nosso Ego de fora do maternar. Eu frequentava uma escola cara, recém-aberta numa cidade vizinha a minha. Por conta disso, não usávamos uniformes. E eu, largadona como sempre fui, tinha ido para aula naquele dia de short jeans e chinelo. Minha mãe, ao me ver lá com a diretora e coordenadora, deve ter pensado: “elas devem estar achando que eu sou uma mãe relapsa, que não se importa com a aparência da filha.” Hoje sei o quão apertado devia estar seu coração durante o tempo que ela levou para percorrer os 18 km que nos separavam, mas ainda assim, as primeiras palavras dela não foram de alívio ou acalento. Foram uma crítica a minha aparência, uma crítica que marcou.

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Hoje entendo minha mãe mais que nunca porque ontem passei por uma situação semelhante. Liam derrubou um espelho em cima dele (por sorte não quebrou). Na hora meu pavor foi tanto que eu manifestei como raiva. Arranquei ele de onde ele estava pelo braço, já esbravejando que ele não devia ter feito aquilo. Hoje mais cedo, ao checar o machucado nas costinhas dele, escuto ele dizer: “Você era pra ter se preocupado comigo, mas você me agarrou.”

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4 anos, cara. 4 anos e já colocando pra fora as dores de infância que eu internalizei até a vida adulta.

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Diante de situações desafiadoras é muito fácil deixar com que nosso ego ou nosso medo mascare nossos sentimentos mais nobres e nos impeça de vociferar aquilo que nossos filhos mais precisam ouvir. Nossas reações são quase sempre movidas pelo amor imensurável que sentimos por esses seres, mas será que é isso que estamos de fato comunicando? Ainda bem que amanhã é um novo dia e dá pra fazer diferente.


Por Fernanda Marques (@eagoracinderela)

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