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ABC das Emoções


Estou achando essa fase dos três anos mais desafiadora. Nos dois as birras eram algo mais físico, um desarranjo neurológico que culminava com explosão física: a boa e velha birra de se jogar no chão. Agora percebo que o negócio é mais mental; rola um cabo-de-guerra psicológico. Aos dois, eles parecem não entender os limites. Aos três, eles parecem entender mas não aceitam. Então negociam, retrucam, imploram, desafiam. E nem sempre é fácil manter a calma diante do desafio constante que é educar.


Quando falamos em educar, percebo que olhamos para nossos filhos muito mais do que olhamos para nós mesmos. Mas há algum tempo venho notando que sempre que perco controle com Liam, existe algo por trás e esse algo sempre tem a ver comigo, nunca com ele. Se eu não estiver de fato presente ali com ele, se eu não pausar um minuto antes de reagir para identificar os meus próprios sentimentos, tudo que Liam faz toma uma proporção diferente. Situações que eu poderia facilmente contornar se tornam um conflito. E, de repente, me pego falando: “você me deixou triste, você me deixou brava, você, você, você....” Que tremenda responsabilidade essa que tento depositar nos ombros de uma criança de três anos: a responsabilidade pelo meu bem estar emocional.


Não é fácil. Não é fácil olhar para dentro antes de apontar o dedo. É doloroso. Não é fácil respirar fundo. Não é fácil quebrar os ciclos do que nós mesmos vivenciamos no na infância. É um processo longo e demorado que requer comprometimento. É mais fácil mandar calar, falar que “não tem motivo para choro” do que ajudar a criança a lidar com sua complexidade emocional. É automático, na verdade. “Não foi nada,” “já passou,” “que bobo chorar por isso.” As frases que escutamos tantas vezes quando crianças. As frases que hoje perpetuamos. E ainda tem gente que critica quem tenta educar com mais amor e respeito, tem gente que confunde disciplina positiva com permissividade.


Então agora eu pergunto: o moldes antigos de educação funcionaram para você? Tem funcionado para você? Você sabe lidar com a vontade de colocar para fora o choro que desde sempre te mandaram engolir? Você sabe nomear e lidar com cada uma de suas emoções? O “não foi nada” funciona como mágica quando teus problemas aparecem? O autoritarismo dos teus pais te ensinou a respeitar ou te forçou a temer? As vozes negativas incutiram na tua cabeça limites saudáveis ou dúvidas e medos sobre tua própria capacidade? Os “nãos” gritados em teus ouvidos pueris te servem de ferramentas na hora de lidar com tuas frustrações?


Responsabilidade pelos próprios sentimos, está aí uma arte que nós adultos não dominamos. Antes de educar nossos filhos nesse conflito eu sempre saio perdendo, mesmo que ele acabe fazendo o que eu quero. Eu perco na hora que desrespeito meu filho, na hora que exijo mais dele do que ele é capaz de me dá, na hora que deposito sobre os frágeis ombros dele o meu equilíbrio e minha estabilidade emocional. Mas no meio tempo tem uma coisa que vou dominando: a arte de pedir desculpas. Faço isso quase todos os dias. Olho nos olhos do meu filho e prometo tentar ser melhor.


Por Fernanda Marques (@eagoracinderela)

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