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A criança e o agora


Outro dia Liam pegou um rolo de fita adesiva e espalhou pela sala. Do sofá pra janela, da janela pra minha mesa, da mesa pro móvel da televisão. Detonou o rolo inteirinho. Quando me dei conta da proeza e perguntei o que ele estava fazendo, a resposta veio de imediato: “tô decorando a casa pro Halloween, mamãe.” Tudo bem que estamos em Julho mas a resposta do meu filho de 3 três anos fez total sentido para mim e eu deixei a casa “decorada” por algumas horas.

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Alguns dias depois Liam esvaziou um hidratante meu quase todo no chão. De novo indaguei e de novo a resposta veio sem que ele pestanejasse: “tô fazendo lama, mamãe. A lama fica aí no chão e meu carro passa por cima.” E de novo fez sentido. Era um hidratante com bronze, um troço meio amarronzado. Expliquei que achava legal que ele estivesse inventando maneiras de criar lama mas que não era legal que ele fizesse isso com meu hidrante. “Sorry, mamãe.” Ele me ajudou a limpar o chão e seguimos nosso dia.

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Hoje mais cedo estávamos na piscina da casa da minha sogra quando Liam jogou uma toalha dentro da piscina. Ele levou um esporro da avó. Eu calei. Liam se desculpou. Quando minha sogra saiu eu perguntei: “filho, o que você estava tentando fazer?” “Um barco a vela, mamãe.” Fiquei maravilhada com a resposta: “legal! A gente precisa mesmo de tecido pra fazer um barco a vela né? Mas usar a toalha da grandma não é bacana. Vamos pensar em outra coisa?”

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Já repararam como nós adultos fazemos de tudo para aniquilar nas nossas crianças as mesmíssimas habilidades que exigiremos delas mais lá na frente? Qualquer demonstração de criatividade, originalidade, astúcia e capacidade de pensar fora da caixa é facilmente interpretada como “mau comportamento.” Já chegamos dando esporro como se toda e qualquer atitude da criança fosse uma afronta pessoal a nossa autoridade parental.

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Só que não é. A fita adesiva era só decoração. O hidratante era só lama. A toalha era só uma vela. Nenhum deles era sinal de mau comportamento. Crianças vivem no agora. Elas criam e inventam e investigam e não pensam mesmo no trabalho que nós adultos teremos depois. Não é uma afronta. É o lugar mais maravilhoso do mundo: a infância.


Por Fernanda Marques (@eagoracinderela)

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