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Ação do coração

Atualizado: Jan 29


Liam hoje empacou no topo do escorregador. “Não consigo, mamãe,” ele olhava pra mim congelado de medo. É nova essa coisa dele de ter medo. Liam sempre foi tão afoito, tão destemido. Mas agora frases como “eu estou com medo,” “não posso,” “não consigo” viraram uma constante no vocabulário dele.



Ele já brincou naquele mesmo escorregador dezenas de vezes. Subia e descia e subia de novo sem um segundo sequer de hesitação. O medo dele é coisa recente e eu respeito. A capacidade de imaginar o pior é desenvolvida a medida que crescemos, é inerente à condição humana e desempenha papel importante no nosso processo evolutivo. Sem o medo, nenhum de nós estaríamos vivos. Mas existe uma diferença entre validar um sentimento e alimentá-lo.



“Eu não consigo” são as três palavrinhas que mais dói ouvir meu filho dizer. Dói ouvir infinitamente mais do “eu não quero você, mamãe.” O ponto de tudo, o ponto de eu estar aqui e fazer o que eu faço todos os dias é realmente para que ele um dia não precise de mim. E assim sendo, tenho como prioridade de vida fazer com que Liam nunca duvide da própria capacidade. Embaixo do escorregador, eu falei: “você consegue. Mesmo sentindo medo, você consegue. Eu já te vi fazer isso muitas vezes. Eu não vou te tirar daí porque eu tenho absoluta certeza que você consegue. Vai, filho. Vai que a mamãe tá aqui.” Eu não forcei mas também não ajudei, o deixei onde estava.



E ele foi, devagar, hesitando, mas foi. Chegando ao final do escorregador, vocês precisam ver a alegria dele: “Eu consegui, mamãe. Eu consegui!” Deu a volta correndo para subir no escorregador mais uma vez. E escorregou de novo e de novo e de novo, com aquele brilho nos olhos de quem acaba de ganhar o melhor dos presentes: acreditar em si mesmo.


Amor, imaginação e encorajamento são os pilares da educação que tentamos oferecer ao Liam todos os dias. Imaginação é preciosidade. O poder de se imaginar na situação do outro é empatia. A capacidade de se imaginar numa situação melhor é resiliência. Quando tudo é treva, você imagina a luz no fim do túnel. Você imagina soluções para um problema. Imaginar é sempre o primeiro passo. Mas entre imaginar e criar, entre pensar e se mover, existe coragem. E a existência de coragem não significa ausência de medo. Procuro sempre validar o medo do meu filho, por mais infundado que esse medo seja para mim, para ele é algo real e potente. Mas procuro encoraja-lo a seguir em frente: tudo bem ter medo, mas é preciso seguir em frente mesmo assim.


A palavra coragem tem sua origem no Latim coraticum: “cor” significa coração e o sufixo “aticum” é utilizado para indicar a ação da palavra que o precede. Coraticum então seria algo como “ação do coração;” por acreditar-se que era no coração que a coragem se encontrava. Encorajar é, por definição, atribuir coragem. E não é maravilho pensar que temos o poder de desencadear uma ação no coração das nossas crianças? Embora facilmente confundido, encorajar é bem diferente de elogiar, elogio é uma aprovação externa. Encorajar é incentivar algo que vem de dentro. “Você é tão corajoso, filho!” é um elogio. “Nossa, filho! Mesmo com medo você subiu no escorregador sozinho! Eu sabia que você conseguiria.” isso é encorajamento. Entre uma coisa e outra mora o abismo que é fazer algo apenas esperando o reconhecimento e aprovação do outro. O ideal é que Liam leve da experiência o sentimento de superação proporcionado a ele mesmo e não o sentimento de orgulho que ele proporcionou a mim.


Amor, imaginação e encorajamento. O amor o mais importante desses três. Como disse Astrid Lindgren: “Dê às crianças amor, mais amor e ainda mais amor - e o bom senso virá por si só".


Por Fernanda Marques (@eagoracinderela)

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